08 janeiro 2010

Sobre o mesmo tema

Por estes dias, parece-me, as opiniões vão dividir-se em três: os que acham que a malta se passou dos carretos e que esta "brincadeira" foi longe demais, os que acham que o país deu um passo em frente no sentido de se tornar mais justo e até mais civilizado, os que acham que foi bom mas ainda não chega (pensando, em muitos casos, que as propostas mais à esquerda é que deviam ter sido aprovadas).
Eu estou no segundo grupo, mas danço com os do terceiro.
A grande diferença, para quem não sabe ainda, entre a proposta aprovada e as outras é que esta não inclui a adopção por casais homossexuais.
Eu acho que toda a gente deve poder ser pai/mãe/família de acolhimento e toda a gente deve poder adoptar, porque penso que as instituições como orfanatos e afins devem ser locais de passagem e nunca o sítio onde crianças se tornam adultos. Não tenho nada a apontar às instituições em causa, pelo contrário, mas não vejo qualquer vantagem em manter crianças nesta situação, por um lado, e pessoas que querem adoptar sem essa possibilidade ou a ter de adoptar fora do país, por outro. Da mesma forma não percebo porque é que há pessoas que acham melhor ter crianças a crescer nestas instituições do que a serem criadas por dois homens ou duas mulheres. Falam-me da estrutura familiar, eu nunca tive uma dessas e não é por isso que sou mais avariada das ideias do que a restante população. Quantas pessoas criam os filhos "sozinhas" e são bem sucedidas nessa tarefa? Falam-me das figuras femininas/masculinas que faltam num casal homossexual adoptante..mas desde quando vivemos todos dentro de caixinhas onde a única influência é quem mora lá em casa? E os avós, os amigos, os tios, os padrinhos?
Eu penso assim, mas continuo a estar no segundo grupo porque alimento a esperança de que a próxima vez que se fale sobre adopção por homossexuais seja para refazer todo o sistema de adopção nacional que sei, porque acompanhei algumas tentativas de adopção, funcionar tão lentamente que leva as pessoas ao desespero e muitas crianças e jovens a nunca chegar a sair do sistema sem ser por emancipação. Não é assim noutros países, não percebo porque tem de continuar a ser assim em Portugal.

14 comentários:

Miss G. disse...

Clap, clap, clap. Escrevi sobre isto e fiz um link para o teu texto. Porque gostei mesmo do que disseste.

Fuschia disse...

Estou como tu. Eu estou feliz por este passo e percebo que os homosexuais se sintam, como ouvi alguém dizer que foi "um importante passo, mas coxo".

No entanto, eu que vejo de fora, não será mesmo melhor esperar? Ter paciência? Esperar que a mentalidade de tantos tacanhos se adapte a esta nova realidade. Daqui a 5 anos se calhar, se voltarem a fazer a mesma pergunta, muitas pessoas acharão a adopção um passo natural.

Uma coisa de cada vez...digo eu.

Ana disse...

muito muito bom post. disseste o essencial, sem deambulações.
beijinho.

GATA disse...

Eu sou contra o casamento, seja hetero seja homo.

E, digo-te, os gays que eu conheço acham isto tudo uma grande parvoíce!

Lebasiana disse...

eu também acho que se deve dar um paso de cada vez...

primeiro o casamento e a adaptação das mentalidades a essa nova realidade e depois a adopção... eu estou por dentro do sistema de ensino e acredita que iria haver descriminação dessas crianças, sobretudo pelas outras crianças, que conseguem ser bem más...

já cá não vinha há algum tempo! ESTAVA COM SAUDADES!

JOCAS! ;)

Carlos Rangel disse...

Concordo com o que dizes. Cada um é livre de fazer o que quer da sua vida. E que não chateie os outros :)

Beijinhos! ;)

Madame Butterfly disse...

Eu estou com os do terceiro grupo. Se é para se dar um passo em direcção à igualdade, então que seja. E quanto a mim - que não sou especialista na área mas, sendo advogada, vou percebendo qualquer coisita sobra a matéria - parece-me que esta lei vai dar origem a uma inconstitucionalidade.

Mnemósine disse...

Madame Butterfly queres desenvolver esse tema para nossa informação? se puderes, claro :)

Picoli disse...

Concordo com o que dizes, mas por estes dias estive também a debater este tema no meu grupo de amigos e eles fizeram-me ver um lado em que ainda não tinha pensado.
Segundo eles as crianças, que fossem adoptadas por casais homosexuais iriam sofrer mais porque iam ser descriminadas e gozadas pelos colegas. Custa-me a aceitar, mas ia ser verdade, as crianças são muito cruéis e pensam igual aos pais. As crianças adoptadas, que muitas vezes já têm uma história de vida complicada, iam muitas vezes ter dificuldades em lidar com a situação e mesmo em gerir a relação com os pais/ mães adoptivas.
Acho que a sociedade portuguesa ainda não está preparada para esse passo, infelizmente.

Miss Kin disse...

Uma das desculpas que se dão para não se poder adoptar (nem fazer inseminação artificial) é que a criança depois, quando entra na escola, poderá ser marginalizada...
Para mim essa desculpa é "BS", porque os putos são cruéis sempre e nem se precisa ter dois pais em casa, basta ter óculos, sardas, and so on. Isto seria só mais alguma coisa com que se pode pegar, mas que não vai fazer diferença a cabeças bem formadas.

Miss Glitering disse...

Adorei o texto.

Um beijinho.

Ana disse...

Estou com a Miss Kin, isso da discriminação entre crianças é um argumento sem fundamento. discriminação existe em todas as condições sociais, se a pessoa é alta, magra, baixa, gorda, se tem sardas ou óculos, se só tem um pai, se só tem uma mãe...
além disso, como alguém disse, as crianças herdam os valores dos pais. mudem-se os valores da sociedade e desses mesmos pais e as crianças aprenderão o que é a tolerância.
porque, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, as crianças não são instintivamente cruéis e más. elas são porque as ensinam a ser assim.
beijinhos.

_+*A Elite in Paris*+_ disse...

Não sou portuguesa e não partilho a tua/vossa realidade. Mas adorei a opinião e o texto, que seria a minha se ai vivesse.

Beijo meu ♥,

A Elite

A Menina dos Óculos disse...

Antes de mais, agradeço o comentário de boas vindas no meu blogue! Quanto a este assunto, para iniciar o tópico, penso que a felicidade dos outros não nos deveria incomodar. Acho ainda que o facto do casal que adopta a criança ser homossexual, não interfere com a boa educação que estes lhe possam proporcionar. Eu sou professora e vejo tantos filhos (adoptados e biológicos) de casais heterossexuais, com tantas perturbações a tantos níveis, que seriam tão bem resolvidinhas com uma educação melhor! Não digo que os casais homossexuais seriam melhores a tratar das crianças, mas piores não seriam, com certeza! Há quem diga que dessa forma, a criança seria criada numa família disfuncional, no entanto, não seria triplamente mais disfuncional ser criado por um casal heterossexual, marcado por exemplo, por crises de violência doméstica, ou por um casal heterossexual sem condições afectivas para tratar de uma criança?! Sou apologista que, desde que se proporcionem as condições adequadas e que haja carinho para oferecer à criança, qualquer casal (hetero ou homossexual) deveria ter o direito a adoptar uma criança.

Bons escritos para todos!

A Menina dos Óculos