30 outubro 2009

Agora tens, agora não tens

Desde há muito tempo que penso que as formas como apresentamos argumentos, mostramos indignação e nos manifestamos são o suficiente para nos fazer perder a razão. Não o discernimento, o facto de estarmos certos no que nos leva àquela situação.
Já debati esta tese, mas nunca ninguém me apresentou um argumento que considerasse suficientemente válido para me fazer sequer vacilar na minha opinião.
Concretizando: imaginem uma dessas fábricas que quer despedir centenas de trabalhadores. Não há muito que se possa fazer nestes casos mas os trabalhadores querem que lhes sejam pagos os ordenados em atraso, a administração diz que nem pensar*. Faz-se o costume: vigílias, comunicação social, pressões, negociações. Nada feito. Alguém duvida de que as pessoas têm direito a receber os seus ordenados? Não. Então, a multidão enraivecida decide destruir o Mercedes do manda-chuva.
Neste caso, para mim, perderam a razão. Quase perderam o direito de reivindicar o que é seu.
Num caso mais simples: a criança acaba de comer e pede à mãe o gelado que esta lhe tinha prometido. A mãe diz que não (está mal) e a criança faz uma birra daquelas de eriçar cabelos. Mesmo considerando que é uma criança, para mim, perdeu o direito ao gelado. Apenas e só porque não teve a atitude correcta.


*Para o caso vamos assumir que é uma daquelas empresas que nem em falência estão, vão ser transferidas as actividades para outro país, por exemplo.

4 comentários:

Inês disse...

No caso dos trabalhadores destruirem o carro do patrão, sim, perderam a razão pois destruiram propriedade alheia.

No caso da criança fazer birra, acho que não perde a razão pois não destroi nada e não prejudica ninguém.
Está só a argumentar na maneira que as crinaças sabem, pois ainda não têm a capacidade de expôr argumentos.

Mnemósine disse...

Não destrói nada excepto a paciência dos pais. E só o faz porque sabe como é irritante que o faça.
Aplico a mesma lógica, por exemplo, aos estivadores que usaram "vocabulário impróprio" à passagem do presidente da cml e vereadores, quando se manifestaram pelos seus direitos. Não estragaram nada mas foram incorrectos e, a meu ver, puseram-se numa posição desnecessária.

Inês disse...

Mas isso são pessoas adultas, que sabem o que dizem e porque o dizem. As crianças fazem birras para manifestar o seu desagrado. É o seu argumento.

Não vamos comparar adultos (que sabem o que dizem) com crianças (que ainda estão a descobrir a maneira de comunicar)

fuschia disse...

Concordo. Há muitas situações em que acho que se perde a razão. Como recentemente com a Maitê Proença. Ela fez um video parvo e ignorante, e em resposta, muitas pessoas foram extremamente agressivas e mal educadas. Quanto a mim, acabaram por perder a razão.